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10 março, 2013

Se eu fosse ao Festival de Curitiba...


Quando eu morava em Minas Gerais, era mais cinéfilo que teatrófilo e, por isso, diversas vezes frequentei as muitas mostras de cinema que aconteciam em Belo Horizonte, Tiradentes e Juiz de Fora. Agora, meu interesse maior tem sido no teatro, e por isso sonho com o dia em que minhas férias coincidam com o Festival Internacional de Edimburgo, Santiago a Mil, Teatro Stage Fest de Nova York, Festival Ibero-americano de Teatro de Bogotá ou o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte, o Festival de Teatro de Curitiba, entre tantos outros.

Entre os dias 26 de março e 7 de abril, Curitiba será a capital nacional do Teatro, recebendo alguns dos principais nomes das Artes Cênicas do país. Desde produções com uma pegada extremamente comercial, obras clássicas, trabalhos performativos e experimentais e projetos longos de grupos já consolidados. Dei uma olhada na programação e gostaria de destacar alguns trabalhos que já assisti - e acredito que merecem atenção - e outros que estou ansioso para ver e torço para que cheguem logo em São Paulo.

Já vi e recomendo:
- A marca da água, da celebrada Armazém Companhia de Teatro. Trabalho extremamente performativo, com dramaturgia não linear;
- Ficção, da Cia. Hiato. Os seis monólogos que compõem o projeto abordam os limites entre realidade e ficção;
- O Líquido tátil, parceria do destacado grupo mineiro Espanca! com o diretor e dramaturgo argentino Daniel Veronese. O espetáculo provoca uma experiência única e levanta questões sobre teatro e cinema. Me deslocou para um lugar de reflexão sobre as diversas camadas de um espetáculo teatral;
- Os bem intencionados, com a frase "você vê o que você quer ver" os campineiros do Lume causam um impacto surpreendente num interessante processo de fluxo e interrupção;
- Prazer, apesar de não ser o melhor trabalho da companhia Luna Lunera - Aqueles dois é incrível -, mas é interessante como todos os personages são protagonistas e ver como a obra de Clarice Lispector e Pina Bausch inspiraram a cena;
- Recusa (foto), trabalho surpreendente com direção de Maria Thaís. Mandei meu texto Histórias de bicicleta para um dos atores, o Eduardo Okamoto. Achei ele ótimo;
- The Pillowman - O homem travesseiro, tem uma dramaturgia interessante e um trabalho de bufão muito bacana. Só acho um pouquinho longa.

Não deixaria de ver:
- Esta criança, da Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, que eu adoro. Traz a Renata Sorrah num papel que lhe rendeu indicação ao Shell;
- A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir aumento, com o Marco Nani. Ele é foda! Com texto do francês Georges Perec;
- Cine Monstro versão 1.0 é com o Enrique Diaz, um dos principais nomes do teatro brasileiro contemporâneo, com dramaturgia de Daniel MacIvor. Diaz fez montagens memoráveis como Ensaio.Hamlet e A primeira vista.

26 fevereiro, 2013

Ayckbourn no Brasil


Não sei se sempre foi assim, mas tenho observado que os dramaturgos britânicos estão bastante presentes na cena teatral paulistana. E não falo apenas das diversas montagens de obras de Shakespeare, mas também de autores contemporâneos como Martin Crimp, Harold Pinter, Enda Walsh, Dennis Kelly e Alan Ayckbourn. Não tenho dúvidas de que a Cultura Inglesa e seu Festival anual tem responsabilidade por tornar acessíveis os autores ingleses. Em 2011, chegaram a dedicar um evento à obra de Sir Ayckbourn, considerado um dos mais populares da atualidade. As primeiras peças do dramaturgo, ainda na década de 1970, foram muito bem recebidas pela crítica e pelo público, mas durante um determinado período as coisas não foram bem assim, e ele chegou a declarar que não escreveria mais. Hoje possui setenta e sete peças escritas e produzidas em Scarborough e Londres. É o dramaturgo vivo mais encenado do mundo, com peças traduzidas para mais de 35 línguas.

Por aqui, tenho notícias da montagem de pelo menos sete peças: Afogando em terra firme, Isso é o que ela pensa, Pessoas absurdas, Assombrando Júlia, a trilogia Enquanto isso... (Na sala de jantar, Na sala de estar e No jardim), Tempo de comédia e A serpente no jardim. Conferi as quatro primeiras dessa lista, tendo sido conquistado especialmente por Isso é o que ela pensa, com Denise Weinberg no papel de Susan, personagem inspirada na mãe do dramaturgo. Outra obra muito conhecida por aqui é Medos privados em lugares públicos, eternizada no cinema por Alain Resnais, e que ficou em cartaz por três anos no saudoso Cine Belas Artes.

O ator e produtor Eduardo Muniz, que atuou em Isso é o que ela pensa e Tempo de comédia e que acaba de estrear na direção de Afogando em terra firme, passou um período, em 2011, fazendo um estágio de direção ao lado de Ayckbourn, em Scarborough, na montagem de Neighbourhood Watch. Em abril do ano passado, estive em Londres no período em que o espetáculo estava em cartaz, no Espaço Cultural Tricycle, mas infelizmente não consegui assistir. Muniz e a atriz Lavínia Panuzzio participaram de um documentário da BBC sobre o dramaturgo. Confira um trecho a seguir:


Em cartaz:

Afogando em terra firme
Teatro Jaraguá, em São Paulo
Sexta, às 21h30; sábado, às 21h; domingo, às 19h

Isso é o que ela pensa
Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro
De quinta à domingo, às 19:30, até 31 de março

21 fevereiro, 2013

Dramaturgias urgentes



Em 2012 o Centro Cultural do Banco do Brasil lançou um projeto chamado Dramaturgias Urgentes. Dividido em quatro módulos temáticos, a proposta era estimular jovens a criarem seus primeiros textos teatrais a partir de temas que têm se destacado no nosso Brasil contemporâneo, quais sejam: ¨A nova classe média brasileira: os emergentes¨, ¨Envelhecimento da população brasileira: melhor idade?¨, "Brasil, um país de estrangeiros" e ¨Brasil: violência e relações sociais".

Na ânsia por escrever meu primeiro texto teatral, quando vi a divulgação do primeiro módulo, me senti extremamente estimulado a participar. Frequentei as palestras e os encontros paralelos que antecederam as inscrições, e corri escrever um texto que me era urgente: a história de uma mulher que estava comemorando seus 45 anos e se encontra com sua família para celebrar, mas as pessoas não são nada afetivas entre si. Na época eu estava cursando a disciplina O drama em questão - aspectos inovadores da dramaturgia brasileira [1910-1943], estudando Maeterlinck e seu teatro estático e também Roberto Gomes, Oduvaldo Viana, Oswald de Andrade, Gastão Tojeiro, Renato Vianna, entre outros. Criei um texto chamado Feliz aniversário, que de alguma forma lembrava uma comédia de costumes, mas que ao mesmo tempo tinha sua ação deslocada, inspirado nas peças de Maeterlinck. Então, trata-se de uma peça em que nada acontece, um retrato, que explora o vazio nas relações familiares e que cria expectativa em torno de algo que nunca se realiza. Recebi um parecer técnico de um dramaturgo que foi completamente indelicado, se valendo de palavras extremamente pesadas e desestimulantes.

Vi os módulos dois e três acontecerem, desejei participar mas só lembrava do parecer destruidor. Resolvi, então, investir seriamente na área de dramaturgia, e me inscrevi na seleção da SP Escola de Teatro. Nesse meio tempo, acabei lendo uma peça e tendo contato com o autor da crítica da minha primeira experiência de escrita teatral e qual não foi a minha surpresa ao perceber a sua total falta de sofisticação, uma necessidade enorme de se autopromover e uma certa zorratotaltice em sua dramaturgia. Era a deixa que eu precisava para dar a cara a tapa novamente.

Quando chegou o quarto módulo, decidi participar. No dia da inscrição eu ainda não tinha começado a escrever nada, mas surgiu uma inspiração tão forte e tão dentro do tema, que não pude deixar de sentar, escrever e me inscrever. Assim nasceu Aqui não tem princesa, a história de uma menina que vai morar com o namorado, a sogra e o cunhado em uma casa extremamente humildade, tem dificuldades de conviver com os integrantes desta família até o dia em que os percebe como seu porto seguro. A peça não ficou entre as seis finalistas do módulo, mas é umas das 35 que receberam um parecer técnico. Dessa vez, um parecer técnico delicado e motivador, assinado por uma dramaturga. Logo na abertura, ela parabeniza o autor por ter aceitado o desafio de participar do projeto e em seguida traça uma análise detalhada da ação e dos personagens, apontando possibilidades e motivando o desenvolvimento do texto.

Quem quiser conhecer as peças selecionadas, hoje (21/2) e na próxima quinta (28/2), às 20h, no Teatro do CCBB - SP, José Fernando de Azevedo e os integrantes do Teatro de Narradores farão a leitura dramática das mesmas. Para ler as minhas, é só pedir que eu envio o arquivo em pdf: rafaelmunduruca@gmail.com.

18 fevereiro, 2013

Voltarei, Recife

 
Sempre fui desses que nas vésperas do Carnaval citavam o Luiz Melodia nas redes sociais dizendo que ficava triste quando essa época chegava. Esse ano resolvi me permitir uma experiência diferente e comprei passagens para Pernambuco. E pela primeira vez na minha vida eu estive em um Carnaval de verdade!

De sexta à terça, revezei entre as mil atividades de Olinda e Recife. Comi tapioca no alto da Sé. Pulei nos melhores e mais animados blocos de Olinda, subindo e descendo as ladeiras, batendo cartão na 13 de maio e no escadão do MAC. Almocei macaxeira com carne seca. Beberiquei Pau do Índio e Pitu Cola. Acompanhei o famoso Galo da Madrugada pelo Centro Histórico do Recife, ao som de frevo e das canções de Chico Science. Assisti parte do grandioso show de abertura. Virei a noite na Festa Maledita, em um espaço na beira da Bacia Portuária. Caminhei pela Orla de Olinda. Me deliciei com cuscuz com queijo coalho na Central do Carnaval. Estive na belíssima Noite dos Tambores Silenciosos, com os Maracatus de todos os cantos de Pernambuco, no Pátio do Terço. Comi empadas de queijo do reino na Orla de Boa Viagem. Vi o Maracatu no Parque Dona Lindu. Observei o rio Capibaribe e as construções antigas que o ladeiam, a partir do terraço do Paço da Alfândega. E para o gran finale, pulei com Elba Ramalho e cantei com Caetano Veloso.

 
Fui muito feliz nestes cinco dias, Um carnaval extremamente diversificado e democrático, com todas as atrações gratuitas e atividades para todas as idades. Bebidas e comidas com valores acessíveis e transporte público a noite toda. Fiquei tão encantado com a folia que providenciei adereços que simulavam discretas fantasias. O pernambucano tem um orgulho de sua terra, de suas tradições e de sua história que é impressionante. Qualquer dúvida que pude ter sobre localização e direção foram sanadas com explicações históricas e geográficas. A cada vez que tocava uma música da terra, os pernambucanos cantavam de cor e em alto e bom som. Um carnaval sem brigas, sem estresse e sem perdas. Foi ainda uma oportunidade de aprender palavras novas como enguiar, cabuetar, encaralhado, pirangueiro, pirraia, pitoco, biziu, cafuceta e ainda a origem da expressão rariú (¨how are you¨, em um inglês popular e voltado para a prostituição).

Um pouco antes de partir para o Carnaval, comecei a ler Orgia, diários do escritor e dramaturgo argentino Túlio Carella, durante o período em que viveu no Recife, no início da década de 1960. Na obra ele apresenta seu cotidiano no teatro e na universidade e narra momentos tórridos de muita sacanagem vividas ao lado dos cafusús que ele encontrava nas ruas da capital pernambucana. Durante esses poucos dias de folia, pude sentir um pouco deste calor dionisíaco e visitar algumas das referências postais citadas por Carella, como a ponte Maurício de Nassau, a rua Duque de Caxias e o Teatro Santa Isabel. Busquei, também, perceber os Recifes de Era uma vez eu, Verônica e O som ao redor. Para completar minha jornada, faltou um passeio de catamarã para relembrar as paisagens de Ex-Isto e Febre do Rato. E uma visita ao famoso Castelo de Brennand. Mas voltarei, Recife. Você e Olinda estão no meu coração.

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Para ver outras imagens dos dias em que estive em Pernambuco, acesse o álbum no Facebook.

07 fevereiro, 2013

Um pouco de crítica


"Antes tarde do que nunca", para começar meu texto com um clichê, no clima da peça A mecânica das borboletas. Agora, quase um ano após ter escrito a crítica a seguir - no curso de extensão Exercícios de Crítica para a Cena Teatral Contemporânea, ministrado por Kil Abreu, na SP Escola de Teatro - resolvi finalmente publicá-la. Justificativas para o atraso? Na época em que escrevi esse blog não estava ativo e eu não me sentia seguro. Agora, muitas peças e estudos depois, acho que chegou a hora de publicá-la, na íntegra, tal qual foi escrita. Aguardo críticas sobre ela.



Crítica – A mecânica das borboletas

Na estreia paulistana, dia 13 de abril, do espetáculo A mecânica das borboletas, no Teatro Sesc Anchieta, o público era composto, prioritariamente, por convidados. Muitos destes chegaram em cima da hora, outros não compareceram, deixando parte da plateia vazia e provocando atraso de 20 minutos no início da apresentação.

Com a frase nada original “há de se cuidar do jardim para que venham as borboletas”, a atriz Suzana Faíni começa o espetáculo. Viúva de um mecânico, mãe dos gêmeos Rômulo e Remo, ela participa da cooperativa de bordadeiras criada por Lisa, sua nora. É dia 16 de junho, mesma data que Romulo fugiu de casa para descobrir o mundo, e, também, na qual, três anos mais tarde, seu pai veio a falecer. Após 20 anos sem dar notícias, é neste dia que Rômulo decide retornar. A data é uma referência não desenvolvida ao famoso Bloomsday, que celebra a obra Ulisses, de James Joyce. As inspirações literárias são constantes na peça, de Jack Kerouac a Goethe, citando ainda passagens bíblicas e da mitologia romana. Há espaço até para o livro De moto pela américa do sul, escrito por Che Guevara. São tantas as referências, que torna-se difícil identificar o que é original na história.

A exceção feita para a interpretação Suzana Faíni, responsável pelos momentos de emoção e diversão do espetáculo - é ela quem consegue arrancar as gargalhadas mais animadas do público cada vez que sua personagem tem um rompante de loucura – os outros atores parecem representar de forma automática. A mão do diretor parece ter pesado um pouco nessas atuações. A primeira cena de Ana Kutner e Otto Jr. em nada anima o público. Lisa, personagem de Kutner, é colocada em posição de submissão, obedecendo ao assovio de seu marido, Remo, como se ele chamasse uma fêmea no cio. No encontro, eles iniciam uma cena frustrada de sexo. Tudo é tão rápido e mecânico que a nudez da atriz poderia ter sido evitada. Eriberto Leão, interprete de Rômulo, entra em cena como se fosse o próprio cowboy Marlboro: “O bom filho à casa torna.”

O encontro entre os irmãos é explosivo. Rômulo viajou o mundo, esteve em Berlim, Amsterdam e até em Cuba. Passou vários anos nos Estados Unidos, escrevendo livros os quais sua família nunca poderá ler por não entender o idioma. Num momento de crise, decide retornar para tentar se reencontrar consigo mesmo. Remo culpa o irmão por todos os seus problemas e frustrações. Remo ficou na pequena cidade do interior, cuidou da mãe, casou-se com a ex-namorada do irmão, assumiu a oficina que antes era do pai. Está obsessivo em reconstruir uma Harley Davidson, apenas com peças originais. É esta moto que permitirá que ele também descubra o mundo. Ela é o símbolo de sua busca pela liberdade. Liberdade esta negada a ele por sua esposa, que guardava a última peça que faltava para que a moto funcionasse. Com a volta de Rômulo, grande amor e primeiro namorado de Lisa, ela sente a necessidade de se livrar do marido e lhe entrega “secretamente” a última peça da moto.

O personagem de Eriberto Leão começa falando apenas em português, e após uma bebedeira, em que ele cantarola um hit em inglês, seu personagem parece voltar aos dias em que passou fora e aos poucos ele fala cada vez mais expressões em inglês. A julgar pelo final, em que ele começa a se sentir em casa, identificando-se até mesmo com a caixa de ferramentas de seu pai, o processo deveria ser inverso – chegar falando estrangeirismos, e ir se abrasileirando, retornando as origens.

O cenário reproduz o quintal, a oficina e a cozinha da família de forma engenhosa. Divido em vários níveis, oferece agilidade e determina a encenação. O figurino é simples, caracteriza os personagens com o melhor clichê da idosa dona de casa, do mecânico e do aventureiro. Surpresa para a ausência do elenco na ficha técnica, tão completa, entregue ao público. Os atores são citados apenas no texto em que o dramaturgo, Walter Daguerre, narra seus dias de férias na fazenda do ator Paulo José, pai da atriz Ana Kutner. Em seu relato, Daguere fala sobre dias inspiradores no qual se percebeu duplo e resolveu escrever esta peça.