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20 setembro, 2011

Dramaturgias I - Rigoletto

Dia 14 de setembro assisti a um espetáculo no Theatro Municipal de São Paulo. Estive ali pela primeira vez, e numa ocasião bastante especial: o aniversário de 100 anos deste Theatro. Entrei lentamente, tentando controlar minha ansiedade. Disparei olhares para as escadas de mármore, as estátuas que lembram deuses do teatro, o longo tapete vermelho, os detalhes em dourado, o pé direito alto, os vitrais e tudo o mais que eu pudesse capturar com o olhar. Com o coração disparado, recebi o libreto. Quis caminhar por todos os corredores. Visitei a plateia, admirei o palco, passei os olhos pelas frisas e os demais setores, contemplei a cúpula. Sentei animado entre as poltronas e pedi que um amigo me fotografasse. Conhecer o Municipal é experiência que precisava ser registrada, para além da memória. De volta ao hall, me encostei em um canto, próximo ao vitral e comecei a observar as pessoas que transitavam por ali. Comecei a devanear. Imaginei Oswald e Mario. Vi Tarsila. Ela e Oswald ao meu lado, aos beijos. Beijos roubados. De um tempo em que ainda não estavam juntos oficialmente. Imaginei a confusão que Mario e Oswald e Graça Aranha realizaram ali, enquanto Tarsila ainda estava na Europa, na ocasião da Semana de Arte Moderna, em 1922. Voltei. Segui para o café. Os espelhos, as mesinhas e o balcão, cuidadosamente escolhidos pelos irmãos Campana, exigiram que eu consumisse um marzipã de chocolate e um expresso. Senti-me numa fenda no tempo. São Paulo tem dessas coisas. Às vezes me percebo em outros anos, décadas, e até séculos.


Antes de soar o segundo sinal visitei uma das sacadas do Theatro, na qual é possível ver o centro. Já não mais iluminado por lâmpadas de mercúrio, com aquele tom amarelo nostalgia. Inspirei o ar fresco da noite e segui para o lugar que estava reservado para mim. Este, em local menos nobre do que a poltrona que eu havia experimentado mais cedo, mas ainda assim com uma vista privilegiada. Ali, não importa onde se esta sentado, para todos os lados que eu olhava era possível ver mais do Municipal. Em poucos lugares tenho essa sensação de que estou num local sagrado.

O terceiro sinal anunciou o início do espetáculo. Em cartaz, a ópera Rigoletto, de Verdi, com direção cênica de Felipe Hirsch, cenografia de Daniela Thomaz e direção musical de Abel Rocha. Eu nunca havia ido a Ópera. Aguardei dois meses para aquela Ópera e 26 anos para estar ali. Para mim, tudo belíssimo. O cenário, as interpretações, as cantorias, os amanhaceres e anoiteceres, o rio. Senti-me completamente tocado. Só me dei conta das três horas que se seguiram quando acabou. O terceiro e o último ato foi o mais tocante. Para além da música conhecida, La Donna e mobile, o que presenciei ali é quase intraduzivel, um quarteto harmonioso, alcançando notas inacreditáveis, encantando a todos.


Na saída, aquele receio de andar pelo centro de São Paulo a meia noite. Mas aquela esperança de estar em um filme de Woody Allen, ouvir um sino badalar doze vezes e ter um encontro com os ilustres modernistas que agitavam a cidade na década de 1920.


Dramaturgias II - A Escola do Escândalo

Meu pai, que fez 49 anos nesse domingo, havia comprado um par de ingressos via Peixe Urbano para a peça teatral A Escola do Escândalo, em cartaz no Teatro Raul Cortez, na Fecomércio. Por um motivo qualquer ele não poderia ir ao espetáculo e me ofereceu os ingressos. Resisti algumas horas até aceitar os convites. Uma peça com um nome, imaginei algo bem tosco. Resolvi pesquisar. A direção é de Miguel Falabella. A atriz principal é a Maria Padilha. E no elenco constam ainda Tonico Pereira, Bruno Garcia, Cristina Mutarelli, Jaqueline Laurence, Armando Babaioff, entre outros. Um time de estrelas globais. Achei que poderia ser uma oportunidade interessante de assistir algo diferente. Tenho boas lembranças da Maria Padilha (inesquecível em O Cravo e a Rosa) e já me diverti com novelas escritas por Falabella, como Cara e Coroa (gente, quantos anos eu tinha?) e A lua me disse. É tosco, eu sei, mas por um tempo eu gostei também de Toma lá, da cá, e as piadas do Seu Ladir.

A Escola do Escândalo se passa em uma cidade onde todos se conhecem e adoram falar mal da vida alheia. Lembrou-se da sua cidade? rs. Mas essa história, apesar de permanecer atual, é do século XVIII. Foi escrita pelo dublinense Sheridan, que passou quase toda a vida em Londres. As história é repleta de clichês. Mas é divertida. O cenário surpreende. É uma pena que o Bruno Garcia parece sempre fazer o mesmo papel. A surpresa ficou por conta da interpretação de Armando Babaioff, impagável na pele do irmão mais novo e trambiqueiro. Foi impossível reconhecer nele o personagem recém-interpretado na novela Ti-ti-ti. O tédio ficou por conta da moral da história. Maria Padilha e Tonico Pereira entraram em cena para explicar as situações e fechar com o "felizes para sempre". Muito simpático o pedido de desculpas que a atriz ofereceu a plateia por conta dos quinze minutos de atraso no início da encenação.


Dramaturgias III - Cartas de amor para Stalin

Outro dia, Bruno Machado sugeriu via Twitter que eu deveria assistir a peça Cartas de amor para Stalin, dizendo: "não perde a Bete Coelho no Sesc Santana". Assim que tive a oportunidade comprei os ingressos. Sendo véspera do aniversário de meu pai, resolvi convidá-lo ao espetáculo.

Estive naquele teatro outras duas vezes. A primeira para ver o show Tecnomacumba, de Rita Ribeiro, e a segunda, para o espetáculo Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César. Este último, com Paulo José no elenco. Esta última encenação e a Cartas de amor guardam semelhanças: uma mesa com um telefone no canto esquerdo do palco, espaço em que o personagem masculino passava a maior parte do tempo, uma dupla composta por um casal, personagens que chegam em situações limite, roteiros escritos a partir de cartas pessoais e a literatura como pano de fundo, em um poesia, no outro prosa.

Bete Coelho interpreta a esposa do grande escritor russo Bulgákov que, censurado pelo regime de Stalin, entra em crise. Ele desenvolve uma espécie de obsessão pelo ditador, seu censurador. Ela, buscando o melhor para seu marido, propõem interpretar Stalin, supondo as reações do ditador diante das cartas de seu marido. Mal sabia que a partir daquela ação, o fantasma de Stalin passaria a frequentar o seu lar.

Já havia visto Bete Coelho em um papel masculino, na peça O Terceiro Sinal, no Sesc Ipiranga, ano passado. Havia me surpreendido com sua bela interpretação e com os efeitos visuais que projeções traziam para a sua peça. E mais uma vez, não foi diferente. Pelo contrario, esse espetáculo é ainda mais intenso que o anterior. A atriz transita entre duas personas completamente distintas, com grande habilidade. Ricardo Bittencourt, que dirigiu O Terceiro sinal, desta vez divide a cena interpretando Bulgakóv.

O espetáculo vai crescendo aos poucos, repetindo diálogos e gestos. Uma construção burilada no jogo entre palavras e movimentos. Tenho visto esse formato de cenas e diálogos que se repetem de forma a construir a narrativa também em outras dramaturgias atuais. A lembrança mais marcada que tenho nesse sentido é com a peça O Jardim, de Leonardo Moreira, da Cia. Hiato. Neste, o espetáculo é encenado quatro vezes, paralelamente, com repetições que vão se complementando (O Jardim está entre os meus favoritos de 2011). As duas peças têm histórias completamente diferentes, mas me chama atenção as repetições durante a narrativa. Para mim, mais uma vez esbarramos em questões sobre tempo e espaço, extremamente presente nas produções atuais.

Uma pena que este foi o último final de semana de Cartas de amor para Stálin. Tenho alguns amigos que iriam adorar assistir.

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