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06 setembro, 2011

Havia amoras pelo caminho


Meu sábado começou com o pensamento no almoço. Restaurant Week = oportunidade de conhecer restaurantes legais por um preço quase justo. Sai de casa com o objetivo de encontrar um dos participantes do evento. Desci a alameda Fernão Cardim, peguei a Campinas, depois a Lorena, cruzei a Nove de julho e caminhei até a Melo Alves. Havia várias amoreiras carregadas, havia amoras, caídas, pelo caminho. Me lembrei de quando eu era criança e tinhamos um sítio, a 14 km do centro de Ji-Paraná, em Rondônia. Em épocas como agora, de amora, eu passava horas colhendo os frutos, depois um bom tempo esperando todo o processamento que minha mãe fazia para transformar as amoras em suco e geléia.


Cheguei ao Chakras. Ano passado pensei em comer lá, mas acabei indo ao Obá, que é delicioso e fica a poucos metros na mesma rua. Entre as opções do cardápio, escolhi de entrada uma sopa de vegetais com aroma de bacon e queijo cotage, como prato principal o medalhão de salmão ao forno com risotto de laranja e espuma de páprica e pra finalizar, Crostata de maçãs e tâmaras com farofa de amêndoas e sorvete de baunilha de sobremesa. O prato é uma combinação perfeita. A crostata, eu não havia observado que era acompanhada por sorvete. Talvez eu tivesse preferido outra sobremesa. Satisfeito, caminhei até o MIS.

Tinha visto algo no jornal sobre a exposição em cartaz: Dialogos transversais. São fotos, alguns vídeos e telas, que apresentam produções das décadas de 1970 e 1980. Me diverti com as fotos de "Amantes da chuva", que apresentam uma Bete Mendes jovem. Gostei também das fotografias de Cristiano Mascaro, que fez uma série de registros da região do Brás. Pretendi ver também as obras de Ruth Slinger, em programação paralela, mas houve algum problema e os vídeos dela não estavam sendo exibidos. Segui ao MuBE, onde pretendia ver a mostra de Steven Klein e de Philippe Herbet, mas a primeira já havia terminado. Philippe apresenta a exposição Rhizome Oriental, seus registros em texto, foto e vídeo do percurso que fez por lugares que fizeram parte da URSS. São registros de mulheres, paisagens e crianças. A captura do tempo prensente. De um momento.


Me bustransportei para Higienópolis e fui conhecer a nova Livraria da Vila, no Pátio Higienópolis. A tão falada "biblioteca de Hogwarts"... que na verdade não é em nada parecida com aquela. Uma livraria bonita, cheia de livros bonitos, com seções bem distribuidas. Gostei muito do centro da livraria, que opta por estantes baixas, ampliando a visibilidade e a circulação do ar. Na volta, passei no Sesc Consolação para consultar a programação da noite. Por acaso, comprei o último ingresso para o show da Nana Caymmi. Entre sambas e boleros, conheci um pouco mais de uma cantora bem humorada. Todas as música que ela interpreta e que um dia estiveram em algum trilha de novela (e não são poucas!) foram interpretadas. Incluindo, a clássica Resposta ao tempo", da inesquecível abertura de Hilda Furacão.

Domingo. Mais um dia que começa com a preocupação com o almoço. Dessa vez sai de casa com destino certo. O caminho, passando pelas amoras, foi praticamente o mesmo. Fui ao Dui. Enquanto caminhava, recordava de outra felicidade que tive com amoras. Durante bons anos a avó de uma amiga, a Luiza Lafuente tinha um pé de amora no quintal de casa, em Curitiba. Certa vez, quando eu ainda morava em Minas, ganhei um pote enorme de geléia feita pela avó da Luiza, com as amoras do quintal.

No Dui, comi o popular picadinho de carne, que na leitura sofisticada do chef foi realizado com fraldinha e cachaça, acompanhado por arroz de sete grãos e mini legumes salteados. Minha excitação neste relato seria maior se meu almoço nesta segunda-feira, no SESC Consolação, não tivesse sido quase igual, tão saboroso quanto e menos salgado em todos os sentidos: arroz integral com sete grãos, picadinho de alcatra com molho madeira, queijo e ervilhas. A sobremesa do Dui não agradou. Tartare de abacaxi com manjericão e espuma de coco. Uma pena. Ácida e gordurosa.

De lá fui a Caixa Cutural Vitrine Paulista, visitar a recém inaugurada exposição Mapas invisíveis. Com curadoria de uma carioca, a exposição propõe a artistas que vivem e/ou interagem com São Paulo constantemente a falar sobre o Dna da cidade. O libreto me colocou em contato com um etnólogo que estudei na graduação, Marc Augé, que com seu livro "Não-lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade", foi grande inspiração para a criação do Café com Papo. Agora ele me apresenta outro conceito, o do "presente perpétuo", "um tempo congelado em que as atualizações acontecem tão rapidamente que quase não se consegue enxergar o passado ou vislumbrar o futuro". A exposição fala de uma cidade com outros limites. Sem limites. Não experimentada. Uma São Paulo disponível. Uma das obras mais bacanas é a que propõe que você entre no terceiro ônibus que aparecer, desça no décimo quinto ponto, realize alguns passos e encontre um objeto qualquer e o traga para integrar a exposição. Pretendo fazer. Alguém acompanha? Um casal levou fotos do registro que eles afirmar ser dessa experiência. Mas as fotos foram tiradas na própria paulista. Dúvido que existam quinze pontos de ônibus na Paulista se seguirmos por uma única direção.

Peguei um ônibus e desci no quarto ponto, exatamente em frente ao Itaú Cultural. Era o último dia da exposição de arte cibernética, mas estava ali para conferir a ocupação do Cildo Meirelles: Rio oiR. Logo na entrada, um texto incrível que explica o porque do nome desta ocupação. Rio, de fluxo natural de água. Rio, de dou risada. Oir, de rio ao contrário. Oir de escutar em francês. Duplos. Um que se une ao outro e forma um terceiro. As fotos que ilustram a instalação são a prova de que o processo de criação deve ter sido extremamente divertido. A captação das águas resultando em sorrisos. A ocupação é dividida ainda em duas salas, na primeira, fluxos de gargalhadas. A outra, barulhos d'água. Desde os rios, até torneiras e afins. Lado A e lado B de um mesmo disco, como está definido ali. Já estive imerso em obras de Cildo algumas outras vezes. Duas delas quando estive em Inhotim, no interior de Minas. Lá conheci Desvio para o vermelho e outras obras. No CineSesc em 2009 assisti a um documentário chamado Cildo. Conheci outras obras que me imprescionaram e me divertiram.

A noite fui conhecer outro lado A e B. Outros duplos. Um que se une ao outro e forma um terceiro. Assisti a performance de Denise Stoklos no espetáculo Preferiria não?, baseado no clássico Bartleby, o escrivão, de Herman Melville. Denise interpreta o narrador de Bartleby e também o narrador de sua própria vida. E também tantos outros personagens quantos foram necessários para contar esta história. Sem, ao mesmo tempo, interpretar nenhum deles. Tudo isso com sua técnica do Teatro Essencial. Assisti a outro espetáculo dela no final do ano passado, "Vozes dissonantes", durante a retrospectiva que ela fez no Centro Cultural São Paulo. A primeira vez foi mais impactante, mas ainda assim, é uma forma interessante de performance.

Lamento que em São Paulo, mesmo que hajam amoras no caminho, não podemos comê-las. Uma tarde, gastei minutos a observar mais atentamente as amoreiras da alameda Fernão Cardim. Todos os frutos eram cintilantes. Alguém poderia pensar que aquele brilho fosse açúcar, frutos doces. Mas, na verdade, elas brilham por conta da poluição. Do óleo que vai se impregnando nelas.

2 comentários:

Daniel Prestes disse...

oi. passear por sampa, pelos seus textos é muito bom, embora sinta um quê de tristeza, por só ter acesso de modo breve, por meio dos seus textos. e uma coisa que reparei, é que, em relação a comida, me lembra um pouco as idas e vindas do narrador do Mangá Gourmet. =)

:: Helô :: disse...

Se você aceitar fazer o percuso proposto pela exposição "Mapas Invisiveis" com uma desconhecida eu topo...rss. Gosto das coisas que você escreve aqui :)