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14 setembro, 2011

o tempo e o espaço


Ando pensando em mudar de casa. Aproveitei o sábado para caminhar pelo centro da cidade e visitar ruas nas quais gostaria de morar. Na hora do almoço parei na praça Dom José Gaspar, atrás da Biblioteca Mário de Andrade, na Cachaçaria do Rancho. Segundo o garçom, havia duas opções de feijoada: a carioca, gorda e a baiana, magra. Fiquei com a baiana, que vinha apenas com lombo, paio, costelinha e charque. Enquanto come, samba! Todo sábado um grupo de sambistas anima a praça e a cachaçaria.

Não longe dali, já próximo a praça da República, segui uma sugestão de um amigo e fui ao número 275 da rua Barão de Itapetininga, onde está a Livraria Francesa. Com neon na entrada, mobiliário clássico e piso de pastilhas formando imagens geométricas. Entre as obras, diversos livros conhecidos, presentes nas livrarias brasileiras, no entanto, em edições francesas. Obras do Sempé, a coleção Photo Poche, livros de Antoine de Baecque. E claro, um espaço especial destinado ao O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry.

A noite, fui ao Teatro da Vila, na Vila Madalena, prestigiar o segundo show da querida amiga Roberta Oliveira, com quem trabalhei no Aprendiz. Há cinco anos Roberta começou a frequentar o Kolombolo, grupo que pesquisa e divulga o samba de raiz paulista. Com sede na rua Belmiro Braga, o grupo costuma realizar um evento chamado Praça do Samba, todo último domingo do mês, com roda de samba e a tradicional feijoada das Tias Baianas. Roberta está acostumada a puxar as rodas e, também, o cordão carnavalesco do Kolombolo. Ela participa, ainda, da Curimba, grupo formado só por mulheres que cantam uma espécie de "samba de lavadeira", uma cantoria bem tradicional. Em seu show, Roberta apresentou seu trabalho solo, intitulado Divina Filosofia, em que interpreta composições próprias e de amigos dessas rodas. A apresentação fez parte do projeto Pague quanto vale, no qual o público decide quanto quer pagar pela atração. O dinheiro é revertido em melhorias no Teatro, que fica dentro de uma escola pública, o Max, na rua Jericó. (Acabo de ver que Roberta tem nova apresentação marcada - 16/9, no Ó do Borogodó)

Domingo, na companhia de um amigo, desci a Brigadeiro até o Ibirapuera e, mais uma fez, fui visitar a exposição Um outro lugar, no MAM, que apresenta criações de artistas que viveram a passagem do século XX para o século XXI e produziram obras nesta primeira década. Entre as semelhanças, obras que falam sobre o capitalismo, sobre o tempo, refletem sobre o espaço e as interações sociais. Para mim, se destacam os trabalhos dos mineiros Marilá Dardot, Rivane Neuenschwander e Cao Guimarães e Lais Myrrha.

Marilá criou uma obra que conquistou minha atenção, logo na primeira visita que eu fiz a esta mostra, com uma obra chamada Introdução ao Terceiro Mundo (Terrorismo). São três bombas emolduradas, criadas com vidros de formatos diversos, preenchidos por glitter, serpentina, confete e outros itens festivos. Com a seguinte definição:

"TERRORISMO Os grupos terroristas do Terceiro Mundo não são guiados por motivos políticos, religiosos, étnicos, nacionalistas ou separatistas. Movem-se pelo afeto, precisam estar juntos. São revolucionários porque pretendem uma grande transformação, uma mudança sensível: transmutar o adverso em favorável. Chegam em bando e desmascarados, absolutamente visíveis. Cantam, e arremessam suas bombas violentando o espaço que explode em cor, em brilho e cacos de vidro, com cuidado. (FCB, MD)".

Lembrei-me da cena abaixo - churrascão de gente diferenciada - Higienópolis - 11/5/11. Imagem: luddista.


Rivane e Cao produziram um vídeo em que acompanham uma bolha de sabão em uma casa vazia. Cao é o diretor do filme Ex-isto, que assisti recentemente, e também de O Andarilho, documentário que eu ainda não assisti, mas já ouvi falar muito bem. Laís desenvolveu um trabalho obsessivo em que uma mão aparece tentando registrar o tempo (ver imagem no início do post). Mas o tempo é sempre mais veloz. Quando a mão termina de desenvolver o registro, aquele tempo já se foi, já é passado. Esse trabalho da Laís me trouxe a memória aquela música da Céu, 10 contados:


"Mandei uma mensagem a jato às entidades do tempo
Já me foi verificado que nem mesmo haverá segundos
Que os minutos foram reavaliados e que pra cada suspiro serão 10 contados".


Tem mais algumas outras obras que gostei, como as fotografias de pessoas que se colocam em lugares nos quais elas supostamente não poderiam estar. Os "entres". Há ainda duas obras que abordam de forma clara a questão do consumo: uma vitrine, iluminada, coberta por papel kraft e, outra, um carrinho de supermercado imóvel, cheio de tijolos. Desejo e impossibilidade juntos.

Faminto, caminhamos ainda quase uma hora até chegar ao Itaim Bibi, onde fui conhecer o Ping Pong, casa de comida chinesa participante do Restaurant Week. Uma oportunidade de conhecer um lugar nada barato, e que oferece uma experiência gastronômica com sabores inusitados. Escolhi a opção dois que inclui dois Pork puff's, uma massa folhada com recheio de mignon suíno grelhado, cebolas caramelizadas e mel, coberta com gergelim, dumpling's variados e um arroz especial envolto em folha de lótus. De sobremesa, sorvete de coco com calda de gengibre.

Na volta, aproveitando que estávamos próximos da Faria Lima, desviamos um pouco do caminho e fomos ao Museu da Casa Brasileira. Em cartaz, uma exposição chamada A Rua é Nossa... É de todos Nós! - que me lembrou dos trabalhos e textos do meu antigo chefe, Gilberto Dimenstein - uma reflexão sobre a utilização dos espaços públicos em diversas partes do mundo. A montagem traz imagens legais, porém muito texto. Tive impressão de que o acervo permanente do MCB estava menor do que da outra vez que estive lá. Antes de ir embora, ainda demos uma volta no jardim e interagimos com a obra/experimento Eólices.

Um comentário:

Daniel Prestes disse...

Tenho que lembrar de não vir aqui, pela hora do almoço. xD