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11 setembro, 2011

Performances noturnas



Há tempos não me encontrava com a Tati. Quinta-feira, 8/9, pensamos em ir à Livraria Cultura, mas ela lembrou que haveria uma performance, gratuita, na Pinacoteca. Seria as 19h30. Imprimi um mapa com o caminho que percorreria da General Jardim até o Parque da Luz. Às 18h30 sai do meu trabalho, desci até a Santa Casa - que com sua iluminação noturna me encantou - segui até o Largo do Arouche, e caminhei pela rua Vitória. Após cruzar a Avenida Rio Branco os passos precisaram ser mais largos. A cada esquina, bares pouco iluminados, rostos estrangeiros, outros mal encarados, espreitavam. Trabalhadores e trabalhadoras noturnas, dispostos a preencher todo tipo de imaginário, ocupavam as calçadas. Nas ruas, montanhas de entulho - caixas, lixos, latas, restos de comida. A rua Vitória se aproximava do fim e eu já não tinha certeza sobre qual caminho deveria seguir. Por um instante tive receio de pegar meu mapa e registrar que eu também era um estrangeiro ali. Por sorte a rua Vitória acabava num trecho que eu reconheci. Virando a esquerda, avistei o Parque da Luz. A torre da estação me trouxe uma agradável sensação de familiaridade. Estive ali outra noite, no primeiro semestre. Durante a Virada Cultural tive a oportunidade de assistir a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e a São Paulo Cia. de Dança, num palco armado em frente a estação. Cheguei a Pinacoteca e o portão estava fechado. Um segurança se aproximou e eu falei a senha "vim para a performance de Theo Werneck". Os portões foram abertos, entrei. Antes mesmo de eu me aproximar das escadas da entrada da antiga escola de Belas Artes o portão já estava trancado novamente. No Hall principal fui orientado a seguir para a exposição que motivava a performance, ir ao café ou aguardar por ali.

Fui ao subsolo onde esta montada a exposição que apresenta as performances realizadas ali entre 1975 e o fim da década de 1980. Um texto inicial enfatiza o vanguardismo da Pinacoteca e seus gestores daquele período, personagens que ajudaram a reconstituir a memória dessas performances. Fotos e vídeos de diversas intervenções ilustram aquele período. Num dos vídeos, uma intervenção de Nelson Leirner aparece brevemente. Uma luz azul em fundo negro é o registro da performance de Theo Werncek, realizada originalmente em 1986 e que seria reapresentada naquela noite. Há um blog oficial com diversas informações e vídeos sobre as diversas instalações: www.blogpinacoteca.com.br.

Meu celular estava descarregado, decidi então buscar uma tomada na cafeteria. Ali, enquanto aguardava a Tati e a recarga, tive um agradável encontro com um brigadeiro gigante, saboroso, feito de forma legítima, e não com sabor a maizena como os que algumas padarias insistem em servir (o da Bella Paulista é um dos piores brigadeiros da cidade).

19h30. A Tati não havia chegado, segui solo para a performance. Sentei na primeira fila, naquele chão frio, bem ao centro do octógono. Enquanto não começava, me perdi em devaneios sobre como deveria ter sido a performance de Philip Glass na instalação A Soma dos Dias, do Carlito Carvalhosa. Cheguei a ouvir algumas notas musicais.

As luzes se apagaram. Um som eletrônico realizado ao vivo convidava o artista a iniciar sua performance. Theo entrou, todo de preto. A menos de um metro de onde eu estava, deu início ao ritual. Em um tablado preto montou uma estrela de cinco pontas e acendeu incenso. A fumaça insistiu em vir para a minha cara durante toda a performance. A ação do performer consistia em girar no ar tubos iluminados, alguns lembravam sabres de luz, que na escuridão possuíam uma capacidade recessiva e deixava marcas no ar. Marcas que dão o nome a performance de Grafite Efêmero. O resultado não fica apenas no conceitual. Formas abstratas e etéreas se formam. 25 minutos é o tempo da performance. Os vídeos que ilustram esse post são da primeira (1984) e da segunda (1986) vezes que Grafite efêmero foi apresentado, na própria Pinacoteca.



Enquanto as pessoas aplaudiam, Tati chegou. Saímos de lá, pegamos o metrô e fomos para Paulista tomar um café.

Visitando o site da Pinacoteca, encontrei um vídeo muito bacana sobre sua próxima exposição de longa duração. Confira abaixo.




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No dia seguinte, na hora do almoço, Milton Ohata, um colega do trabalho, me levou para uma excursão pelos corredores da Santa Casa. A arquitetura do lugar é incrível. E ainda tive boas explicações sobre a revolução que representou a construção daquela casa de saúde no início do século XX. Um hospital que dava a oportunidade aos pacientes de olharem para fora. De avistarem o verde através das grandes janelas dos leitos.

A Santa Casa e a Pinacoteca guardam algumas semelhanças: belos jardins abertos ao público, construídas com tijolinhos aparentes e com o pé direito alto.

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