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27 setembro, 2011

Sorriso perdido

E o Cine Belas Artes fechou. No fim de janeiro, quando ele ainda dava seus últimos suspiros, foi organizada uma festa para angariar recursos para imprimir um abaixo assinado promovido contra o fechamento do cinema. Foi no Studio SP. A banda era aquela do Thunderbird, Tarântulas e tarantinos. Um amigo, Fábio Ornellas, que esta realizando um documentário sobre o Belas (desde muito antes da história do fechamento) me convidou para acompanhá-lo na cobertura do evento. Não havia 50 pessoas ali. Chegamos as dez. A uma da manhã a banda ainda não havia subido ao palco. Bem antes de ir embora, conheci alguns dos representantes mais entusiasmados do movimento pela preservação daquele patrimônio. Entre eles, Sorriso. Um homem com cerca de quarenta anos, com traços orientais, cabelo grisalho, portador da carteirinha de número um do antigo cineclube e de um sorriso certo, que justificava o apelido.

Há uma semana assisti uma cena que não me sai da cabeça. E que me faz escrever essas linhas. Era de manhã. Sai um pouco tarde para o trabalho e tive que ir de transporte público (normalmente vou caminhando). Quando o ônibus dobrou a esquina da Paulista com a Consolação avistei Sorriso. Ele saia apressado da passagem subterrânea que dá acesso ao ponto de ônibus, mas ao invés de seguir o seu caminho e se preparar para pegar o ônibus, derrepente, ele parou. Com os olhos baixos, ele contemplou o cinema, agora desativado. Estava atonito. Parecia nem respirar. Enquanto meu ônibus descia a Consolação, no tempo em que foi possível, observei que ele continuava ali, estático, já sem a referência de outrora. Sem o cinema. Sem o sorriso. Ambos, perdidos.


Essa foi a triste imagem que ele viu.

Um comentário:

Fabio Ornelas disse...

Adorei o texto, Rafa. Belo, comovente e singelo. Parabéns! Abraço.