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03 fevereiro, 2013

Partida com Damas



Denise Stoklos e Maria Alice Vergueiro (foto) foram os grandes destaques do primeiro dia de aula na SP Escola de Teatro, na qual sou aprendiz do curso de Dramaturgia. A grata surpresa de começar o ano letivo ao lado dessas mulheres fortes me trouxeram boas lembranças e reflexões.

A primeira vez que a percebi Denise Stoklos foi em uma campanha do teste do pézinho na TV, em que ela terminava dizendo que "Viver bem é uma arte". A primeira vez que vi Denise Stoklos em cena foi em Vozes Dissonantes, encenado em mostra retrospectiva de seu repertório no CCSP. Na época, fiquei impressionado com sua habilidade de sozinha conquistar e conduzir o público por aquela história extremamente política. A primeira vez que estive ao lado de Denise Stoklos, foi quando mandei um e-mail convidando-a para escrever um texto para o Blog da Cosac Naify sobre seu espetáculo Bartleby, inspirado no livro de Herman Melville, que ganhou versão brasileira na Coleção Particular publicada pela Editora. Lembro dela falando sobre sua relação com Louise Bourgeois e o espetáculo montado com cenografia da artista francesa. Denise foi convidada para dar a aula inaugural da SP e falar sobre seu método do Teatro Essencial, já divulgado mundialmente, em que explora as possibilidades de um trabalho cênico completamente autônomo, no qual o artista é dramaturgo, intérprete, coreógrafo e encenador.

Já Maria Alice, a primeira vez que a percebi foi no Youtube, no viral Tapa na Pantera, criado por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes. Durante a faculdade, meus colegas e eu assistimos incontáveis vezes seu divertido depoimento sobre a maconha. A primeira vez que vi Maria Alice Vergueiro em cena foi em As Três Velhas, do chileno Alejandro Jodorowsky, no palco do CCBB, na época encenando ao lado de Luciano Chirolli e Pascoal da Conceição, este último, substituído posteriormente pelo meu querido amigo Danilo Grangheia. A primeira vez que estive ao lado de Maria Alice Vergueiro foi em outubro de 2012, no Galpão do Folias, quando tive a oportunidade de assistir a primeira versão de um documentário que está em processo de finalização sobre As Três Velhas, que registra a turnê realizada no Brasil e no exterior. Logo após a exibição do vídeo, Maria Alice queria saber a percepção de seus colegas de cena sobre Cuba, sobre o país que encontraram durante o Festival Mayo Teatral. Impossível esquecer seu depoimento emocionado em que contava sobre sua geração, que assistiu a Revolução Cubana, e seu reeencontro com um país decadente e de sonhos perdidos. Maria Alice é dessas pessoas que dá vontade de abraçar, de sentar ao lado e pedir: fala. "Falar o que?" Fala qualquer coisa, pois tudo que você disser tem valor e com certeza me modificará. Com o início das aulas na SP, a grande notícia de que Maria Alice será pedagoga convidada e acompanhará os aprendizes ao longo deste ano, cheia de ideias e propostas.

Divertido foi ver, durante o encontro na SP, a respeitosa troca de elogios entre as duas e descobrir a trajetória cruzada de Denise e Maria Alice, que chegaram a ensaiar um espetáculo juntas, mas não estrearam. "Maria Alice desistiu", afirmou Stoklos. Durante sua fala, Denise ressaltou o teatro sagrado e puro. Citou Shakespeare e os Gregos. Criticou o "teatrinho de costumes" que está cada vez mais popular e com as salas sempre cheias. Lamentou que os alternativos, esses que fazem um teatro sagrado, são sempre incompreendidos, estão sempre excluídos da mídia. E afirmou que é tempo de escolhermos entre dois caminhos: esse sagrado ou aquele comercial. Maria Alice ponderou que talvez não seja exatamente assim. Afirmou que a diversidade é extremamente importante e que sempre haverá público para todos os tipos de teatro. E finalizou: "Sinto que estou começando uma coisa nova. E estou comovida. Vamos nos divertir, moçada!"

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