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04 fevereiro, 2013

Pequena cena underground


Em outubro do ano passado, participei da “Oficina de escrita na cidade”, ministrada pelo dramaturgo português Jorge Louraço, curso de extensão oferecido pela SP Escola de Teatro. Louraço nos desafiou a criar uma cena curta que tivesse como cenário um local público, bastante urbano, de passagem, praticamente desabitado, localizado na cidade de São Paulo. Um lugar que pudéssemos visitar e fotografar. Escolhi o túnel que fica embaixo da Praça Roosevelt (foto acima - qualquer dia contarei a história sobre como registrei essa imagem). E imaginei dois personagens para a cena: uma mulher de 58 anos, cantora de ópera, de nariz grande, bastante dissimulada e um homem de 63 anos, jornaleiro, gordo e desapegado. O resultado você confere a seguir.

P.S.: Estão abertas inscrições para novos cursos gratuitos de extensão cultural na SP.
 


CAVALOS
Por Rafael Munduruca
 
São 23h30. Carro está parado no interior do túnel existente sob a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. Mulher está encostada no carro. Outro veículo se aproxima.

MULHER (gesticulando)
Ah, Meu Deus! Por favor! Me ajude! Pare! Ajude esta mulher desamparada! Por favor!

Carro para.

MULHER
Deus seja louvado. Que bom que você apareceu. Por favor, me ajude.

HOMEM
O que aconteceu? Estou com um pouco de pressa. Como posso ajuda-la?

MULHER
Ai, senhor. Meu carro. Parou. Não sei bem como. Eu ia para casa. Ele começou a engasgar. Veio parando. Até que morreu. Aqui. Neste lugar perigosíssimo. No meio do nada. Por favor, me ajude. Qual o seu nome?

HOMEM
Calma. Calma.

Mulher o abraça e não solta.

HOMEM
Carlos.

MULHER
Ai, Carlão. Que bom que você está aqui para me salvar.

HOMEM (empurrando levemente a mulher)
Mas tem que ser rápido. Já tinha dado problema antes?

MULHER
É a primeira vez. Ai, Carlão, estou muito feliz que te encontrei. Que você me encontrou. Eu estava aqui, sozinha, com medo, com frio. (tirando o xalê)

HOMEM
Minha senhora...

MULHER
Sua!

HOMEM
Eu sou casado.

MULHER
Claro! O que você está pensando? Eu só preciso da sua ajuda. Da sua rápida ajuda. Tome a chave do meu carro. Por favor.

HOMEM
Dá logo. Vou te ajudar. Mas vamos rápido pois minha mulher está furiosa me esperando.

MULHER 
Furiosa? Esperando? Se eu tivesse um marido, esperaria sempre sorrindo e cheirosa.

HOMEM
Mesmo se esse marido tivesse perdido toda a herança que seu pai te deixou, nos cavalinhos?

MULHER
Cavalinhos?

HOMEM
Bom, vamos aos cavalos do seu carro.

MULHER
Por favor! Por favor!

Homem dá a partida. Carro pega logo na primeira tentativa. Ele desliga. Dá a partida novamente e tudo funciona bem.

HOMEM
Bem, senhora, não há problema algum aqui.

Homem devolve as chaves.

MULHER
Não é possível. Por favor. Espere. Deixe-me tentar.

HOMEM
Mas você viu. Funcionou!

MULHER
Calma. Calma. Ele tinha parado. Ai, carrinho, como você faz isso com a mamãe?

Celular do homem começa a tocar.

HOMEM
Anda. Teste logo. Preciso ir. Minha mulher está ligando.

Mulher entra no carro e dá a partida. Carro engasga e não funciona.

HOMEM (impaciente)
Vamos mulher. Você viu. Ele funcionou. 

Mulher ameaça chorar.

MULHER
Por favor, não brigue comigo.

HOMEM
Não estou brigando. Faça tudo com calma. Coloque o carro no ponto morto, pise na embreagem e dê a partida.

MULHER
Ai, não posso. Olhe. Estou tremendo.

HOMEM
Sai dai. Vou te mostrar mais uma vez como é.

Celular toca novamente.

HOMEM
Malditos cavalinhos!

Homem senta e dá a partida. Carro pega.

HOMEM
Viu? Do jeito que eu te falei. Agora tenho que ir.

MULHER
Muito obrigado. São suas mãos. São milagrosas. (Beija as mãos do homem.) O que eu posso fazer para agradecer? Você concertou meu carrinho.

HOMEM
Mas eu não fiz nada.

MULHER
Como não? Você ressuscitou meu carrinho. Preciso te recompensar de alguma forma.

HOMEM
Imagina. Eu não fiz nada mesmo. E estou com pressa. Malditos cavalinhos!

MULHER
Ai. Essas mãos. Estou tão tensa. Você vê? Estamos aqui a tanto tempo e quase ninguém passou por aqui. Suas mãos... (pega as mãos do homem e coloca sobre seus ombros. Ele começa a massageá-la). Deixe-me recompensá-lo. Que mãos mágicas!

Celular volta a tocar.

HOMEM
Entra no carro. Rápido!

Mulher sorri e obedece. Ela senta no banco do passageiro. Homem senta no banco do motorista. Fecha a porta. Abre o zíper.

HOMEM
Vai! Mata tua sede logo que o papai aqui precisa ir embora.

Homem geme. Celular volta a tocar. Ele ri como quem relincha.

HOMEM
Preciso ir. Encontrar aquela mula, antes que ela desembeste de vez.

MULHER
Obrigada. Pela ajuda.

Homem entra no carro e vai embora. Mulher entra no carro. Liga a luz. Se olha no espelho retrovisor. Enxuga o rosto com um lenço de papel. Passa baton. Se envolve no xale. Sai do carro. Acende um cigarro. Dá duas tragadas. Percebe que um carro se aproxima. Apaga o cigarro na sola do sapato e joga no chão.

MULHER (gesticulando)
Ah, Meu Deus! Por favor! Me ajude! Pare! Ajude esta mulher desamparada! Por favor!

Fim. 

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