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07 fevereiro, 2013

Um pouco de crítica


"Antes tarde do que nunca", para começar meu texto com um clichê, no clima da peça A mecânica das borboletas. Agora, quase um ano após ter escrito a crítica a seguir - no curso de extensão Exercícios de Crítica para a Cena Teatral Contemporânea, ministrado por Kil Abreu, na SP Escola de Teatro - resolvi finalmente publicá-la. Justificativas para o atraso? Na época em que escrevi esse blog não estava ativo e eu não me sentia seguro. Agora, muitas peças e estudos depois, acho que chegou a hora de publicá-la, na íntegra, tal qual foi escrita. Aguardo críticas sobre ela.



Crítica – A mecânica das borboletas

Na estreia paulistana, dia 13 de abril, do espetáculo A mecânica das borboletas, no Teatro Sesc Anchieta, o público era composto, prioritariamente, por convidados. Muitos destes chegaram em cima da hora, outros não compareceram, deixando parte da plateia vazia e provocando atraso de 20 minutos no início da apresentação.

Com a frase nada original “há de se cuidar do jardim para que venham as borboletas”, a atriz Suzana Faíni começa o espetáculo. Viúva de um mecânico, mãe dos gêmeos Rômulo e Remo, ela participa da cooperativa de bordadeiras criada por Lisa, sua nora. É dia 16 de junho, mesma data que Romulo fugiu de casa para descobrir o mundo, e, também, na qual, três anos mais tarde, seu pai veio a falecer. Após 20 anos sem dar notícias, é neste dia que Rômulo decide retornar. A data é uma referência não desenvolvida ao famoso Bloomsday, que celebra a obra Ulisses, de James Joyce. As inspirações literárias são constantes na peça, de Jack Kerouac a Goethe, citando ainda passagens bíblicas e da mitologia romana. Há espaço até para o livro De moto pela américa do sul, escrito por Che Guevara. São tantas as referências, que torna-se difícil identificar o que é original na história.

A exceção feita para a interpretação Suzana Faíni, responsável pelos momentos de emoção e diversão do espetáculo - é ela quem consegue arrancar as gargalhadas mais animadas do público cada vez que sua personagem tem um rompante de loucura – os outros atores parecem representar de forma automática. A mão do diretor parece ter pesado um pouco nessas atuações. A primeira cena de Ana Kutner e Otto Jr. em nada anima o público. Lisa, personagem de Kutner, é colocada em posição de submissão, obedecendo ao assovio de seu marido, Remo, como se ele chamasse uma fêmea no cio. No encontro, eles iniciam uma cena frustrada de sexo. Tudo é tão rápido e mecânico que a nudez da atriz poderia ter sido evitada. Eriberto Leão, interprete de Rômulo, entra em cena como se fosse o próprio cowboy Marlboro: “O bom filho à casa torna.”

O encontro entre os irmãos é explosivo. Rômulo viajou o mundo, esteve em Berlim, Amsterdam e até em Cuba. Passou vários anos nos Estados Unidos, escrevendo livros os quais sua família nunca poderá ler por não entender o idioma. Num momento de crise, decide retornar para tentar se reencontrar consigo mesmo. Remo culpa o irmão por todos os seus problemas e frustrações. Remo ficou na pequena cidade do interior, cuidou da mãe, casou-se com a ex-namorada do irmão, assumiu a oficina que antes era do pai. Está obsessivo em reconstruir uma Harley Davidson, apenas com peças originais. É esta moto que permitirá que ele também descubra o mundo. Ela é o símbolo de sua busca pela liberdade. Liberdade esta negada a ele por sua esposa, que guardava a última peça que faltava para que a moto funcionasse. Com a volta de Rômulo, grande amor e primeiro namorado de Lisa, ela sente a necessidade de se livrar do marido e lhe entrega “secretamente” a última peça da moto.

O personagem de Eriberto Leão começa falando apenas em português, e após uma bebedeira, em que ele cantarola um hit em inglês, seu personagem parece voltar aos dias em que passou fora e aos poucos ele fala cada vez mais expressões em inglês. A julgar pelo final, em que ele começa a se sentir em casa, identificando-se até mesmo com a caixa de ferramentas de seu pai, o processo deveria ser inverso – chegar falando estrangeirismos, e ir se abrasileirando, retornando as origens.

O cenário reproduz o quintal, a oficina e a cozinha da família de forma engenhosa. Divido em vários níveis, oferece agilidade e determina a encenação. O figurino é simples, caracteriza os personagens com o melhor clichê da idosa dona de casa, do mecânico e do aventureiro. Surpresa para a ausência do elenco na ficha técnica, tão completa, entregue ao público. Os atores são citados apenas no texto em que o dramaturgo, Walter Daguerre, narra seus dias de férias na fazenda do ator Paulo José, pai da atriz Ana Kutner. Em seu relato, Daguere fala sobre dias inspiradores no qual se percebeu duplo e resolveu escrever esta peça.

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