procurando, encontre

13 abril, 2015

Interestelar e a vida



Um dos filmes que perdi em 2014 foi Interestelar. Mas felizmente a produção foi uma das selecionadas para o 41º Festival Sesc Melhores Filmes e tive a oportunidade de assisti-lo no último sábado.

A ansiedade era grande. Christopher Nolan e seu novo longa de haviam sido bastante celebrados pelo novo patamar em que colocaram a ficção científica com este lançamento. Ele chegou a editar a Wired Magazine de dezembro, um convite-celebração pelo legado que está traçando. Fotografia incrível. Efeitos especiais incríveis. Atuações brilhantes. bla. bla. bla. O que realmente importa para mim neste filme é o componente emocional. O componente emocional que ele despertou em mim.

Deixo claro que é "para mim", pois essa avaliação foi feita a partir do meu repertório, da minha trajetória, e de tudo aquilo que vivi. Eu nunca fui para o espaço, muito menos para outra dimensão ou galáxia. Não que eu me lembre. Mas eu já sai de casa. E já deixei aqueles que eu amei - e amo - para trás. Nunca é uma decisão fácil. E nunca é uma decisão certa. Porque como tudo na vida essa decisão tem dois lados. E tudo que é bom para alguém pode ser ruim para outra pessoa.

No filme, Cooper (Matthew McConaughey) deixa sua filha, seu filho, seu sogro e seu rancho - tudo o que ele tem na vida - para trás, com o objetivo de tentar salvar a humanidade dela mesma e de todo o mal que ela causou ao planeta Terra. Ele é posto em uma missão espacial, juntamente com outros astronautas, com o objetivo de encontrar outro planeta com as mesmas condições originais da Terra, que favoreçam a permanência dos homens neste mundo, para ser habitado e explorado pela humanidade. Essa viagem o leva ao desconhecido, lugares onde as percepções de tempo e espaço são bastante diferentes das conhecidas pelas leis da física teorizadas na Terra. Variando de acordo com a gravidade, a proximidade com buracos negros e outros elementos.

Em um desses planetas, Cooper e Amelia (Anne Hathaway) enfrentam uma espécie de tsunami como nunca visto por aqui, um tsunami cíclico e devastador. Ao retornar para a estação espacial percebem que a expedição que pareceu ter durado cerca de uma hora, aconteceu em tempo equivalente a 23 anos terrestres. Na estação, Cooper tem acesso a uma infinidade de vídeos enviados por sua família ao longo do período em que esteve fora. Percebe como as vezes a vida passa em um piscar de olhos e começa a se confrontar com sua ausência. Seus entes queridos seguem vivendo suas vidas, enfrentando suas angústias, conhecendo novos problemas. E muitas vezes perdem a esperança no reencontro. E quando esse reencontro acontece, as pessoas já não são mais as mesmas. Os desejos anteriores à partida podem continuar os mesmos, as expectativas também, mas o mundo segue girando.

Há catorze anos sai da casa dos meus pais. Nesse período aquela casa se desfez, e muita coisa entre todos nós mudou. Em maio completa dois anos que não vejo minha mãe e minha irmã. E ao longo desse 24 meses quase não falei com elas. Com minha mãe costumo falar uma vez por semana, as vezes menos. Já minha irmã é mais difícil, as vezes ficamos três meses sem trocar uma linha sequer. Seguimos nos amando, temos acesso a todo tipo de tecnologia, não tivemos nenhum confronto traumático, mas não nos falamos. Vamos vivendo como se nossa comunicação fosse telepática. Vemos coisas que sabemos que o outro gosta e somos levados a momentos de outros tempos, lembramos de momentos decisivos ou felizes e recordamos todas as coisas pelas quais passamos juntos. Mas vamos contemplando essa distância. Sabendo que uma ligação pode nos aproximar, e ao mesmo tempo acreditando que estamos muito ocupados em nossas expedições.

Interestelar me fez chorar. Não pensei na supremacia norte-americana, nos escolhidos, ou nos brancos como conquistadores do universo. Pensei em problemas maiores: a minha falta de comunicação. E quer saber o que mais, não sai do cinema e liguei pra elas. As horas foram passando, já são quase 48 horas, e o máximo que eu consegui fazer foi parar para escrever este texto. Linhas que talvez elas nunca vão ler, ou vão, mas que tentam traduzir um pouco do muito amor que sinto, e sempre vou sentir, por elas.


p.s.: Em breve, pouco menos de um mês, minha mãe virá me visitar. Espero estarmos todos vivos para esse reencontro. Talvez eu apele para um sono criogênico, como aquele usado pelos astronautas do filme, para fazer esse período avançar mais rápido e tentar conservar um pouco do rosto sem rugas, tal qual ela conheceu.

Um comentário:

Unknown disse...

Quanta coisa... quanta história...para sempre vou te amar...